quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

mosaico de rancores: 25

Não se precisa mais do que um par de pernas indigestas para ser vítima de um assédio. E esta noite tudo que espero é ser devidamente subtraída. Um jogo de sedução no qual não há damas nem reis nem rainhas, apenas xeque-mate e cavalos mansos que se deixam acariciar. Olhos de cegos julgam meus atos. Oráculos não desvendam meu destino. Mandalas giram como cinzeiros encima da mesa. O garçom se aproxima com passos rápidos e certeiros. Um copo de gim. É o que se pede em filmes americanos. Carrego rancores e disfarço. As máscaras vestem meu rosto e são minhas feições mais verdadeiras. Homens passam e devoram pedaços indesejáveis de mim. Ruminantes. Sinto meu coração pulsar através da minha jugular. Tenho litros de amor a oferecer, mas não posso despejá-los sobre qualquer taça. Corda bamba. Cavalos relincham ao meu redor, ignoro. Um rapaz toca levemente minhas coxas e me convida para dançar. Aceito, sei das suas intenções e elas são exatamente as mesmas que as minhas. Suas mãos deslizam sobre minhas costas e tocam meus quadris. Tremo. Elas são macias e quentes e despertam despudores. Gaivotas galopam meu corpo. Dentes perfeitos mastigam minha carne. Peixes nadam em meu umbigo. Um rio verde e calmo explode dentro de mim. Remos me conduzem. Retalhos são sombras de coisas mortas.


marcia babieri

domingo, 14 de dezembro de 2008

MOSAICO DE RANCORES: CAPITULO 23

Serpentes dançam sensuais em seu mundo. Não me sobra nada além de guizos e venenos. Você não foi capaz de me discernir. Eu não sou a comida que eu vomito, nem sou costurada com a mesma linha imprestável dos meus vestidos. Caracóis saem de suas cascas e riem da minha desgraça. Lúcido, você se confunde com seus flashs, com seus brilhos insuportáveis. Tripés. Lentes sujas. A sala agora tem a dimensão de uma fotografia 3 por 4. Os objetos fogem dos meus dedos, calos enormes atrofiam minhas mãos. Não sou Cristo, não tenho chagas, mas minhas feridas sangram com ardor divino. Não tente apalpar o impossível. Deus tentou me alertar, pena que nunca acreditei em ninguém. Cega. As traves incomodam meus olhos. Olhos na testa. Peixes mortos fingindo vigílias. Insulinas e agulhas, jamais aprendi a conviver com elas. Cateteres povoam meus braços. Morro e a morte cheira álcool e éter. Não posso continuar aqui esperando Lúcio voltar. Talvez ele não volte. Talvez tenha encontrado consolo em outros braços, em mundos menos complicados e exigentes. Um lugar onde as luzes penetrem docemente as janelas e haja violetas e gerânios na varanda. Aqui, a luz é vulgar e indecente e os cactos apenas sobrevivem sugando a fresta da minha escuridão. Pequenas cavernas se escondem no porão. Saio e procuro desejos. Sodoma e Gomorra e minhas ruelas estreitas espremendo vértebras. Alguém que possa tocar a minha pele e me causar arrepios. Um rio verde e tempestuoso escorre da minha boca. Mastigo carvalhos e cuspo flores. Minha vida descansa solene à margem.

marcia barbieri

carta resposta

Com todo o tempo que eu não tive quando ainda sofria ao seu lado, fiz de minha memoria o passatempo do meu tempo e aprendi a fazer listas de preferencias, exatamente como os orientais fazem, não sei extamente onde isto vai me levar, não sei nem mesmo se vai me levar, o que eu sei com toda a certeza é que agora as coisas ficaram mais às claras, apesar de ainda confusas, você ainda é presente em mim, como um mosntro para uma criança na hora de dormir, sei que você não estar mais aqui mas a sua presença me dar medo e me assusta.
A sua carta não me surpreendeu, eu sabia que este incomodo viria a qualquer momento, logo que eu a recebi, estava decidido a não abri-la e queima-la fechada mesmo, depois pensei em guarda-la, é guarda-la fechada mesmo, como um trunfo, que se exibe para os derrotados, mas alguma coisa dentro de mim fervia enquanto eu olhava e via aquela carta como uma arma letal que poderia ser usada contra mim se eu não a abrisse.
Li e reli a sua carta e confesso que não vou responde-la, escrevo esta tentando não ser uma resposta, antes quero lhe dizer as verdades que você sufocou todos esses anos de ausencia ao meu lado, engraçado, quando ao meu lado você aterrorizava a minha vida, sua ausencia era o meu terror, hoje quando já separados, sua presença é uma dor que eu tenho que carregar e parece para todo o sempre.
As palavras que escreveu me perseque com o som de sua voz em meu ouvido me acusando, me diminuindo e chorando seus fracassos em mim como um rio de lama que insiste em morrer e continuar vivendo.
Mas eu quero lhe falar de minha lista de preferencias, onde a musica não estar presente em nenhuma etapa, você matou em mim todo o gosto e a capacidade musical, hoje é a matematica o meu forte e agora que eu concluí o curso de matematica basica confesso que sei menos ainda, mas com uma felicidade enorme carrego na pasta o certificado de conclusão.
Você por certo vai rir e dizer que na minha idade e posição intelectual, eu já devia ter desistido das besteiras adolescentes e me focar na filosofia que é o meu forte.
Mas na verdade a matematica me sufoca e eu precisava de um alivio.
Mas para seu conforto e desespero eu apresento sem mais discussões a minha lista de preferencias:
1- Ser doutor em matematica inconclusa
2- Esquecer você
3- Ler todas as cartas que eu escrevi pra você e não mandei
4- Me mudar de país
5- Aprender a tocar piano
6- Aprender ter ritmo ( eu sei que sou desafinado e que não sei nem mesmo dançar dois pra lá, dois pra cá)
7- fazer teatro( a nossa vida de casado foi sempre uma comedia, hoje eu me interesso pelas tragedias)
8- Arrancar você de dentro de mim
9- Saber de seus segredos e divulgar para o mundo
10- Fazer morrer o eu que você machucou.

Saiba que eu escrevo esta carta, como se não tivesse lido a sua, em um esforço desconhecido pra mim, estou evitando responder a todas as suas insinuações e pautando a minha carta em meus devaneios, estou tentando não ser um reativo, não responder antes apresentar as minha questões, pra você pensar.
Quero encerrar esta carta pequena, afirmando que não sei o porque, mas não quero lhe ver de novo, mas que me agradaria muito um convite seu convite para que tal aconteça.
Sem mais deste ser que você tanto maltratou e que agora lhe ver a distancia e que é feliz na solidão dos seus pesadelos.

ronaldo braga

domingo, 30 de novembro de 2008

se eu pensasse um poema

Se eu pensasse um poema, teria ele a mim.
Não seria broto, nem jorro.
Seria o inverso.
Não rangeria os dentes.
Não guardaria a casa.
Não seria lobo, nem cão.
Seria poeminha de estimação.
Se eu pensasse um poema não seria ele a dor.
Porque um poema me explode.
Me abre, me rompe, me cega e me guia.
Um poema não me vive.
Um poema não me come.
Não me embriaga.
Não me mata a fome.
Não me castiga.
Nem mimo, nem intriga.
Se eu pensasse um poema não seria ele esta cor indefinível do crepúsculo.
Das sombras e sobras nos meus contornos.
Nas minhas margens.
Nas minhas sondagens.
Nas minhas obscuras:
Paisagens.

alyne costa

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

sorriso de aluguel

sorriso de aluguel

como em um possesso jogo desesperado
almas sofridas desfilam
poses
em um interminavel carnaval de derrotados.

E os poetas da paz
beijam os anjos em noites de lua preta
e
assassinam a vida em seus belos versos corrompidos.

É um tempo de mentiras,
de vidas interditas,
e de poetas que soluçam sorrisos de aluguel
e insistem
nos fluxos invernosos que extrapolam os verões e
calam os beijos.

E é um tempo de verdades,
pois sei,
no olhar dos amantes a palavra recorta o murmurar
e desafia o cantar surdo
numa canção aos corações soturnos e delicados.


ronaldo braga

domingo, 16 de novembro de 2008

OBRA PRIMA

OBRA-PRIMA


Ele realmente não se sentia bem. Uma bruta ressaca e aquela típica vontade de morrer que sempre cerca os desesperançados. Mas para ele ainda havia esperança, ainda que fosse pouca. Muito pouca. Olhou a porra do rosto no espelho retrovisor. O lado direito parecia o lado direito de um monstro, inchado, roxo, cheio de sangue seco e de sangue pisado. Que merda! Que grande merda!

Acendeu o cigarro e deu uma longa golada na última garrafa de cerveja. Nada disso faz diferença, pensou, nem a estrada, nem os pássaros, nem esse rio (porque o carro estava parado bem próximo do rio) nem o céu, nem porra nenhuma, se a gente vai pro saco, se a gente entrega a rapadura, se a gente vai embora, tudo isso continua, e o sol continua, e a chuva continua, que bosta! Estava mesmo perdendo as esperanças, ainda havia uma última, mas ele com certeza não ficaria com ela, era só uma questão de tempo.

Então terminou a cerveja e jogou a garrafa no rio. Que se fodesse a ecologia. Acendeu outro cigarro, que se fodesse a saúde também, e foi fumá-lo embaixo de uma árvore. Olhou o relógio. Ela estava atrasada. Porra! Ele tinha enfrentado toda aquela encrenca. Tinha apanhado mais que um cachorro vagabundo e agora ela se atrasava. Era mesmo pra qualquer um perder a paciência... e a esperança. Jogou a bituca do cigarro no chão e a apagou com a sola da bota. Tirou a gaita do bolso e começou a tocá-la, não tocava muito bem. De qualquer forma aquilo ajudava a passar o tempo.

Antes de terminar a primeira canção, porém, viu-a surgir junto ao Sol que nascia, no fim da estrada. Sorriu, era aquele último pouquinho de esperança. Ela veio vindo feito um gato, quando ele, o gato, anda meio de lado, com cuidado e sorrateiro. Usava um daqueles vestidos de hippie azul que ficavam tão bem nela. Ele levantou, guardou a gaita no bolso e limpou a parte de trás da calça. Sorriu, e o rosto machucado doeu.

- Nossa você está horrível, caubói. – Ela disse tentando tocar o rosto dele, mas ele evitou.
- Sua família, aqueles anjinhos, fizeram isto.
- Que merda!
- Não tem importância. Vamos? Não podemos perder tempo.
Ela sorriu de lado. Realmente parecia um gato. Olhou pro rio. Olhou para as árvores. Olhou para o céu e para o chão: nada disse.
- Que foi? – Ele perguntou – Qual é o problema?
- É que estou confusa, não tenho certeza de que estamos fazendo a coisa certa.
- Como assim?
- Não sei. Só sei que estou confusa.
- E só agora que você me avisa, Ana, que grande merda! Depois de tudo que eu me fodi, você vem me dizer que está confusa.
- Não tenho culpa é que...
- Faça-me um favor, volte pelo mesmo caminho que veio.
- Não precisa ser assim, Danilo.
- Como não? Eu arrisquei tudo. Isso não é brincadeira, porra, é a nossa vida, menina. É a minha vida. Não posso mais voltar pra casa. Não tenho mais nada.
- Desculpe... eu não queria...
- Tudo bem, não faz diferença. Pegue minha gaita, um último presente, e volte pra sua casa.
- Você vai ficar bem.
- Não, mas foda-se.
- Desculpe.
- Tudo bem.
- Caubói?
- Fala.
- Não posso aceitar a gaita.
- Pega logo a porra da gaita e sai da minha frente, pelo amor de Deus.
- Desculpe. – Ela ainda disse mais uma vez, entretanto ele não disse palavra. Ela virou de costas e foi caminhando pela estrada. Diminuindo aos poucos, ficando cada vez menor, sua imagem ficou estremecida, por causa do Sol e, por fim, desapareceu. Ele caminhou até o carro, um Maverick, é necessário dizer, apanhou no banco de trás uma espingarda calibre doze, apoiou-a no chão, tirou a bota e a meia, colocou o dedão do pé no gatilho, a boca no cano e pressionou o dedão pra baixo. O estrondo fez os pássaros voarem das árvores, junto à última esperança que escapou do corpo do rapaz.

Minutos depois, uma jovem artista, pintora medíocre de paisagens, chegou ao lugar. Antes de chamar a polícia resolveu pintar toda a cena.

E pintou uma obra-prima, porque a morte ainda estava por ali e deixou o ar mais denso e nenhum artista, ainda que fosse medíocre, poderia ficar indiferente a toda aquela atmosfera. As pessoas que viam a tela, mesmo vinte anos depois, ainda se emocionavam, sobretudo com o pé descalço do rapaz.

Daniel Lopes

domingo, 2 de novembro de 2008

Sobra de Canção

Restam as minhas sobras, levadas ao vento...
E eu me pergunto o que não sou?
Desde que não estou junto a ti?
Tudo é difícil...
Vejo o amor como um parque repleto de alegorias.
Gangorras e almofadas coloridas.
Espero uma resposta na chuva que desaba em mim:
Lembranças, fragâncias, fotografias e questões.
Triste eu abro os olhos e vejo o amor.
Desenho meu retrato nas paredes dos banheiros.
Risco versos obscenos.
Corto minha alma em fina lâmina.
Nada sangra...
Apenas uma distância que não aparta, nem divide.
Surgem visões de pássaros e rãs...
Um piano toca só.
Acordes por nós dois.
Datas marcadas na agenda.
Esperas, compromissos, filmes adiados.
Encontro marcado com a solidão.
Monólogos, teses, coisinhas inúteis...
Poemas abortados.
Faço minha a chama da sua solidão.
Arrisco previsões.
Desligo todos os telejornais:
Chacinas, política, arriscadas econômicas...
Abraço o travesseiro e sonho.
Qualquer coisa me mostra pulsos cortados...
Corpos mutilados, carbonizados, canções boêmias como não se fazem mais...
Sirenes ressoam:
Polícia ou Ambulância?
Nada me assusta, apenas dói...
Enquanto aguardo a vida voltar a cantar cantigas de roda, cantigas de amigo, cantigas de amor...
Cantigas de Paz...
Ai, mundo diferente...
Gente assustada.
Amordaçada.
Gente com medo de gente.
E eu canto uma canção que não sei.
Uma canção que passará.

Alyne Costa
Salvador, agosto de 2007